terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Viagens Estilo "Ticar"


Acho engraçado quando as pessoas falam: "Ah, pra ficar em Roma, quatro dias são suficientes" ou "Para conhecer tal lugar, você não leva mais do que dois dias!" ou ainda "Você faz Amsterdam em três dias". Faz Amsterdam? Como assim? O que significa "fazer" uma cidade? Quando ouço isso eu me pergunto: e o tempo para entrar no clima da viagem? O tempo pra sacar a cidade e começar a se virar com aquela sensação de "agora já to entendendo!"? O tempo pra relaxar,  dar risada, sentar num café, restaurante, numa praça ou o que quer que seja e observar as pessoas? Tentar conhecer o lado B da cidade e as atrações menos turisticas que podem ser interessantes senão mais legais? 

Estou indo com o Chris pro Rio e para a Ilha Grande em janeiro e estou em uma crise quase que profunda porque não poderemos ficar muitos dias em cada lugar, justamente porque escolhemos dois lugares.

Comentei com o meu amigo que eu gostaria de ficar mais em Ilha Grande e ele respondeu que para uma ilha, 3 dias seriam suficientes.  

Primeiro: a Ilha Grande é Grande!! Tem mais de 100 praias, várias cachoeiras e lagoas, o que significa que pra visitar tudo, você precisaria de no mínimo uns dois meses.

Segundo: A ilha grande é uma Ilha!! Estar lá é quase sempre (exceto na vila do Abraão) estar no meio da natureza, de frente para uma praia paradisíaca, andando de caiaque ou tomando uma caipirinha com o pé na areia pensando que a vida poderia ser sempre assim. Não importa que você fique três dias em apenas uma praia, o importante é estar lá, relaxar, desconectar do mundo, curtir a companhia de quem você gosta. Lembro de quando ia pra Caraiva, ficava 15 dias lá e quando ia embora levava a sensação de que poderia ficar mais 15 sem problema nenhum... naquela mesma praia, naquele mesmo rio, comendo o mesmo pastel no Pará e indo nos mesmos forrós à noite.

Enfim, esse negócio de tantos dias são suficientes é para as viagens estilo "ticar". Você visita alguma atração turistica, tira o maior número de fotos que for possível, sai correndo porque já cansou da multidão de turistas e "tica" na sua lista. Pronto, algo a menos! Depois vai pro próximo "must visit" ou praquela  loja que é barata, comprar horrores, sair com milhões de sacolas e depois se dar conta que talvez tenha que pagar sobrepeso no aeroporto.

As viagens "ticar" são aquelas que você corre, corre, corre até visitar tudo e volta pra casa com bolhas nos pés e muito mais cansada do que no começo das suas férias. Não tenho nada contra quem gosta desse tipo de viagem e sinceramente  me pego fazendo isso mais do que gostaria, porque tempo pra viajar não é algo que tem sobrado nas nossas agendas, infelizmente. 

Pensando bem, eu nem precisaria ir pra Ilha Grande, pois eu já "tiquei" da minha lista de destinos quando fui há 10 anos.  Mas a verdade é que se eu não posso ficar lá quanto tempo eu quiser, pelo menos posso ir quantas vezes eu quiser!!

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Afastamento e Exílio - Vinda para Londres e Morte do Meu Pai

Duas experiências marcantes, importantes na minha vida  e pelas quais eu não passaria ilesa: a minha vinda para Londres e  a morte do meu pai. É esquisito pensar que eu poderia falar sobre estes dois acontecimentos em um único texto, com um tema definido -  afastamento e exílio.

Longe de mim querer descrever, definir ou abordar como um todo a experiência de perder meu pai. Aqui há apenas alguns pensamentos soltos que povoaram minha confusa cabecinha nos últimos anos.

Antes do meu pai morrer, ele estava trabalhando, se aposentando (ao mesmo tempo, porque quem o conhece sabe que ele jamais deixaria de trabalhar), com planos de viajar mais e aproveitar mais a vida. Pensar que ele tinha estes planos é o que mais dói em todos, quando pensamos no que aconteceu. Mas não estou aqui para falar dessa dor.

... Ele estava trabalhando, se aposentando e com planos em mente. Ele era o meu pai com 58 anos. O meu pai fechado que com o passar dos anos estava amolecendo um pouco e ficando mais próximo de nós.

Quando ele adoeceu, ele passou a ser o meu pai com câncer de pulmão, fazendo 59 anos, internado no Hospital Samaritano e com metástase no cérebro. Essa parte da metástase e dos seus últimos meses e semanas vale mais um texto inteiro, mas não é aqui que ele vai caber.

Quando ele morreu, ele de repente se tornou o meu pai que estava comigo no colo, na foto que eu tinha à minha frente. Ele era o meu pai com bigode, tomando cerveja em um lugar com rua de terra e fuscas estacionados, naquela foto alaranjada com cara de infância. Era o pai com todas as idades, com os mais diferentes visuais, em todas as etapas da sua e da minha vida.

Era o afastamento. Ele não estava mais no hospital com 59 aos de idade, em 2010. Todo aquele peso da realidade e dos fatos de repente sumiu e eu podia vê-lo na idade em que eu quisesse, da forma que eu quisesse e ainda pra completar, sentir a sua presença mais forte do que nunca e acreditar sem sombra de dúvidas que daqui a pouco iríamos nos reencontrar.

Antes de vir para Londres: eu estava em São Paulo, com o meu passaporte italiano recém tirado, cheia de vontade e necessidade de experenciar coisas novas e com o saco cheio de São Paulo. Vim. E de repente, o Brasil passou a ser não mais o Brasil em que eu estava, em agosto de 2012. Ele passou a ser o Brasil desconhecido para os outros, a terra em que eu cresci e dono da cultura que amo mais do que qualquer outra. A minha casa não era mais São Paulo, mas São Paulo, Granja Viana, Cotia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Amazonas, Pantanal, Bonito, Floripa e mais todos os lugares que eu ja fui e que fazem parte da minha história.

Sabe quando as memórias simplesmente vêm na sua cabeça? Então... tem dias que eu fico pensando sobre uma amiga que estudo na minha classe no Micael quando eu tinha 9 anos e nunca mais a vi. Fico lembrando de algum conhecido que morreu e eu fui no enterro, anos atrás. Penso na cidade da minha avó, nas brincadeiras que eu fazia quando era criança, no jeito que eu comemorei meu aniversário de 10 anos.
Ou seja: se eu estivesse no Brasil, eu estaria na realidade São Paulo, agosto de 2013. Não lembraria desse monte de coisas. Mas o afastamento, o afastamento muda tudo. Ele te distancia daquela realidade que pesa e te prende. O afastamento te solta, solta os fatos e relativiza tudo.

Eu sou da opinião que a proximidade e o afastamento devem ser dosados em nossas vidas para que possamos ver as situações de diferentes formas, pensar e repensar nossas verdades e ter uma maior clareza das nossas vidas.

E sobre a morte do meu pai, eu não deixo uma opinião. A gente não escolhe a doença na nossa família, a gente só pode aceitar. Aceitar essa vivência, sofrer, que é inevitável, e aprender e amar cada vez mais. Amar todos que estiveram conosco neste momento difícil, todos que sofreram com a perda dele e amar ainda mais quem se foi.




sexta-feira, 26 de julho de 2013

SOBRE AS ESTAÇÕES DO ANO

A primeira vez que me dei conta das diferentes estações  foi um pouquinho frustrante e bem didática. Ao se aproximarem as férias de julho, comecei a lembrar com prazer das nossas últimas ferias, quando meu pai construiu uma piscina em casa. Amigos nos visitando pra nadar, meu biquini cor-de-rosa e verde limão, a gente descobrindo novos lugares de onde poderíamos mergulhar...

Quando finalmente julho chegou, percebi que nao era o momento certo pra vestir biquini e que os dias estavam cinzas e frios. Perguntei pra minha mae o que havia de errado e ela então me explicou sobre as estacoes do ano. O jeito era montar lego dentro de casa e comer bolinho de chuva.

A minha vinda pra Londres e toda a minha experiência aqui têm me feito pensar bastante sobre o assunto.

Aqui, as pessoas sao muito mais vulneráveis ao tempo, porque as temperaturas variam bastante. Antes de vir pra cá, eu achava que os ingleses já eram acostumados com o clima e não reclamavam ou se incomodavam tanto com isso. Ao chegar, ví que a maioria deles tambem não gosta do longo e gelado inverno. Com exceção de alguns, é claro.


Quando o inverno foi se aproximando, comecei a pensar em coisas para se fazer durante um tempo que seria de considerável reclusão. Comprei um tecido para encapar umas almofadas meio feinhas que tinha no meu quarto e comecei a escrever um caderno de receitas. Não encapei as almofadas e tambem estou esperando o dia em que farei uma receita do caderninho. Ainda assim, descobri muitas coisas boas pra se fazer:

Estudar.
 É bom ficar no quarto lendo sobre assuntos pelos os quais você se interessa, com a sensação de que nao está perdendo nada la fora.


Trabalhar. É bom trabalhar no inverno. Dá pra se concentrar bastante e dedicar muitas horas do seu dia, porque quando sair dali, provavelmente nao terá muito o que fazer. E QUANDO sair dalí... vai passar frio até chegar em casa.

Comer croissant com camembert derretido no forno sem tanto peso na consciência. E depois, croissant com chocolate, tambem derretido. Está frio, você precisa de energia e merece essa gostosura, pois esta aguentando um longo inverno! O unico problema é quando você vai numa loja experimentar uma roupa e o trocador tem aquela infeliz luz branca, a culpada de tudo!!!

Fazer academia. Caaaalma! Deixa eu explicar! Fazer academia na qual vc nao possa ver a luz do dia e que tenha sauna. Sempre que possível, entrava na academia umas 3 da tarde. Assim, não via que estava escurecendo as 3.30. Fazia yoga, pilates, subia umas escadas naquele aparelho de subir escadas, depois vestia biquini (em pleno inverno, olha que diferente!) e ia pra sauna morrer de calor. Quando saía, já era de se esperar que estivesse escuro. Não havia nada de errado em estar de noite.

Fazer faxina. Não que seja boom, booom, mas pelo menos você nao fica suando que nem no verão.

Começar a assistir seriados. Um dos erros que cometi recentemente foi ter começado a assistir Breaking Bad durante o verão. Agora estou viciada e me sinto mal quando quero assistir enquanto o tempo esta bom la fora.

Cozinhar com as criancas, se eu tivesse criancas.

O inverno aqui deixou mais claro pra mim os ciclos da natureza. Que há um tempo certo para cada coisa, semeio, colheita, momentos de abundância e momentos de escassez. Me mostrou também como somos suscetiveis ao clima, pois uma mudanca de apenas 10 ou 20 graus pode mudar tudo pra nós. No inverno há uma retração, um recolhimento. É tempo de aceitar e esperar. Tudo fica mais devagar. Quando chega o verão, os ingleses ficam eufóricos e querem tirar o atraso. Vivem em 3 meses o que viveriam em 7. E a natureza os ajuda a tirar esse atraso, pois só escurece às 9 da noite. Fair enough!!

Fui percebendo que o problema do inverno aqui nao é so o frio. É tambem o vento, a escuridão e o fato que isso tudo dura muuuuuito tempo. No começo do inverno, você só aguenta. Se previne do jeito que pode e reclama. Quando os meses vão passando, vai dando um bode. As pessoas todas estão de cara feia e de saco cheio. Todos contando os meses para a chegada da primavera.

Quando finalmente a primavera se aproximava e começamos a ter raros dias com sol, eu saía na rua empolgada e vestindo menos casaco do que o normal. Tive que voltar pra casa várias vezes pra pegar mais roupa. Percebi que dias com sol são importantes mas que a temperatura é sim fundamental.

O frio e o vento, principalmente, podem ser sentidos como hostilidade. Já xinguei essa cidade enquanto pegava aqueles ventos entubados dentro das estações de metrô

Muitas pessoas ficam deprimidas durante o inverno. Eu não fiquei, mas tive um inferno astral fortiiíssimo. Venhamos e convenhamos que inferno astral já  não combina muito com natal (que por sí só já é uma época meio esquisita). Imagina então um inferno astral neste inverno que vos descrevo, com um natal se aproximando - o primeiro natal que eu passaria longe da minha família. Foi uma experiência e tanto.  Quando conheci meu namorado, uma das primeiras coisas que falei pra ele foi que eu estava indo embora de Londres, ia morar em Malta. Ja estava quase decidida. Mas aí meu inferno astral passou e o Chris me fez ter vontade de continuar aqui. Ahhhhh! Namorar no inverno é bom. Ficar sem namorado é difícil!!

Só falei de inverno e verão, como se nao existissem as outras estações do ano. Não quero me prolongar, então só de maneira resumida, dou uma descompromissada definição pra cada. No outono, você aproveita os últimos dias que ainda nao está tão frio. Vê as folhas caindo e teme o inverno. A primavera é como a salvadora. Ela te mostra que há vida naquele solo que por tantos meses ficou tão maltratado. Voce se enche de esperança, mas de repente neva e você relembra como está cansado de esperar. A primavera é linda, mas a espera mesmo (a minha espera) é pelo verao.

No inicio do verão voce se depara com umas figuras que parecem ter hibernado em casa durante todo o inverno. Sei la, você olha pra cara da pessoa, pro cabelo, roupas e é tudo tao mal cuidado, como se ela tivesse hibernado mesmo. Talvez elas não tenham hibernado, quem sabe você passou por elas durante  o inverno mas só agora, com mais luz, você repara e vê que elas não combinam com o novo clima. Durante o verão, elas desaparecem. Ou tomam mais sol e você não as reconhece mais.

Os europeus ficam engraçadíssimos no verão. Improvisam biquinis, ficam de cueca no parque como se estivessem de sunga. Não tem aquela padronização que nem no Brasil do que vestir e como se portar. Cada um se vira como quer, como pode. Queimaduras de sol erradas (como as minhas sempre foram!!), lençóis e mantas servindo de canga. Mas uma coisa que eu nao entendo é que a principal comida do pic nic ainda é a batata chips. Geeeeeeeeeeeente!!!!!!!!! Verão é bom pra comer frutas, saladas coisas leves, diferentes e saudáveis. Chega de chips por favor!! Mas é claro que eu nao posso falar isso pra eles. Só pro meu namorado, coitado.

A euforia do verão e a intensidade com a qual eles o aproveitam os faz criar a idéia de que em países tropicais, as pessoas sao tão felizes quanto eles sao nestes dois meses. Engracado, ne? Estava trabalhando com um cara, falavámos sobre o Brasil quando de forma simplória ele me perguntou: no Brasil as pessoas sao felizes, né? Vix Maria, como responder isso? Nem lembro o que eu falei, mas nao foi nada mto complexo pois seria mto dificil para o momento.

Enfim... Nem tinha percebido que eu havia pensado tanto assim sobre o assunto. Acho que o inverno eh bom pra pensar e refletir sobre a vida...

Bom mes de inverno pra vcs, aproveitem como puderem