sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Afastamento e Exílio - Vinda para Londres e Morte do Meu Pai

Duas experiências marcantes, importantes na minha vida  e pelas quais eu não passaria ilesa: a minha vinda para Londres e  a morte do meu pai. É esquisito pensar que eu poderia falar sobre estes dois acontecimentos em um único texto, com um tema definido -  afastamento e exílio.

Longe de mim querer descrever, definir ou abordar como um todo a experiência de perder meu pai. Aqui há apenas alguns pensamentos soltos que povoaram minha confusa cabecinha nos últimos anos.

Antes do meu pai morrer, ele estava trabalhando, se aposentando (ao mesmo tempo, porque quem o conhece sabe que ele jamais deixaria de trabalhar), com planos de viajar mais e aproveitar mais a vida. Pensar que ele tinha estes planos é o que mais dói em todos, quando pensamos no que aconteceu. Mas não estou aqui para falar dessa dor.

... Ele estava trabalhando, se aposentando e com planos em mente. Ele era o meu pai com 58 anos. O meu pai fechado que com o passar dos anos estava amolecendo um pouco e ficando mais próximo de nós.

Quando ele adoeceu, ele passou a ser o meu pai com câncer de pulmão, fazendo 59 anos, internado no Hospital Samaritano e com metástase no cérebro. Essa parte da metástase e dos seus últimos meses e semanas vale mais um texto inteiro, mas não é aqui que ele vai caber.

Quando ele morreu, ele de repente se tornou o meu pai que estava comigo no colo, na foto que eu tinha à minha frente. Ele era o meu pai com bigode, tomando cerveja em um lugar com rua de terra e fuscas estacionados, naquela foto alaranjada com cara de infância. Era o pai com todas as idades, com os mais diferentes visuais, em todas as etapas da sua e da minha vida.

Era o afastamento. Ele não estava mais no hospital com 59 aos de idade, em 2010. Todo aquele peso da realidade e dos fatos de repente sumiu e eu podia vê-lo na idade em que eu quisesse, da forma que eu quisesse e ainda pra completar, sentir a sua presença mais forte do que nunca e acreditar sem sombra de dúvidas que daqui a pouco iríamos nos reencontrar.

Antes de vir para Londres: eu estava em São Paulo, com o meu passaporte italiano recém tirado, cheia de vontade e necessidade de experenciar coisas novas e com o saco cheio de São Paulo. Vim. E de repente, o Brasil passou a ser não mais o Brasil em que eu estava, em agosto de 2012. Ele passou a ser o Brasil desconhecido para os outros, a terra em que eu cresci e dono da cultura que amo mais do que qualquer outra. A minha casa não era mais São Paulo, mas São Paulo, Granja Viana, Cotia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Amazonas, Pantanal, Bonito, Floripa e mais todos os lugares que eu ja fui e que fazem parte da minha história.

Sabe quando as memórias simplesmente vêm na sua cabeça? Então... tem dias que eu fico pensando sobre uma amiga que estudo na minha classe no Micael quando eu tinha 9 anos e nunca mais a vi. Fico lembrando de algum conhecido que morreu e eu fui no enterro, anos atrás. Penso na cidade da minha avó, nas brincadeiras que eu fazia quando era criança, no jeito que eu comemorei meu aniversário de 10 anos.
Ou seja: se eu estivesse no Brasil, eu estaria na realidade São Paulo, agosto de 2013. Não lembraria desse monte de coisas. Mas o afastamento, o afastamento muda tudo. Ele te distancia daquela realidade que pesa e te prende. O afastamento te solta, solta os fatos e relativiza tudo.

Eu sou da opinião que a proximidade e o afastamento devem ser dosados em nossas vidas para que possamos ver as situações de diferentes formas, pensar e repensar nossas verdades e ter uma maior clareza das nossas vidas.

E sobre a morte do meu pai, eu não deixo uma opinião. A gente não escolhe a doença na nossa família, a gente só pode aceitar. Aceitar essa vivência, sofrer, que é inevitável, e aprender e amar cada vez mais. Amar todos que estiveram conosco neste momento difícil, todos que sofreram com a perda dele e amar ainda mais quem se foi.